Projeto cearense descobre o potencial inexplorado da madeira de cajueiros

5 de junho de 2019 - 15:34 #


Tecnologia de processamento da madeira permite a fabricação de móveis e equipamentos apícolas, e foi selecionada para seminário nordestino de agropecuária

Por muito tempo a madeira do cajueiro teve o seu potencial econômico desconhecido em relação aos demais componentes da planta, como a castanha e o caju, produtos com bastante mercado nos ramos alimentícios e até de rações animais.

Diante desse cenário, o engenheiro mecânico Arquimedes Bastos, do Núcleo de Tecnologia Industrial do Ceará (Nutec), órgão vinculado à Secretaria da Ciência, Tecnologia e Educação Superior (Secitece), teve um olhar diferenciado sobre as possibilidades dessa madeira.

Isso levou Arquimedes a desenvolver uma tecnologia inovadora para processar a madeira de cajueiro e criar diversos produtos que podem ser comercializados, como componentes para a produção apícola, peças para palets, e alguns tipos de móveis, como portas e banquetas.

A tecnologia ganhou reconhecimento e foi uma das escolhidas para se apresentar no Seminário Nordestino de Agropecuária 2019, que irá acontecer no Centro de Eventos, nos dias 13 a 15 de junho.

Processamento para uso na apicultura

Arquimedes, que também é apicultor, encontrou nos cajueiros uma solução para reduzir o custo com a infraestrutura na produção apícola do Ceará. As colmeias construídas utilizavam madeira importada de outros estados, a um custo muito alto, inviabilizando o investimento por parte de pequenos produtores rurais.

Observando o desperdício da madeira do cajueiro nas plantações, quando de sua pod, o engenheiro desenvolveu, junto a um grupo formado por profissionais técnicos da indústria apícola, máquinas capazes de processar a madeira descartada, conseguindo assim os insumos necessários para a fabricação de colmeias e outros itens.

As máquinas são apropriadas para o corte desse tipo de madeira, que devido a suas características não conseguia ser processada por máquinas convencionais de marcenaria. “Não é fácil cortar madeira de cajueiro, pois ela é úmida e cheia de fibras e resina. Então iniciamos em 2011 os estudos para a fabricação de uma máquina, e após anos de pesquisa conseguimos identificar parâmetros como a velocidade de corte, os tipos de disco utilizados, e a potência ideal, criando uma unidade de processamento de madeira com várias máquinas” explica Arquimedes.

O processamento começa com a poda do cajueiro. Em seguida, as cascas são retirada e as toras de madeira são levadas a uma máquina, que realiza o corte e as divide em pranchas.

As pranchas também passam por um processo de corte e são transformadas em barrotes ou tábuas, sendo os primeiros transformados em componentes para pallets, e as segundas utilizadas na produção de diversos componentes do setor apícola, como melgueiras para colmeias e ninhos.

O processo barateia os custos em infraestrutura apícola. A madeira representa mais de 70% do custo de fabricação de uma colmeia, e é fornecida para o Ceará a um valor de aproximadamente R$ 1.800,00 por m³, enquanto a madeira de cajueiro não chega, atualmente, a R$ 150,00 o m³ processado, resultando numa redução de custo que atinge desde o produtor até o consumidor.

O desenvolvimento da unidade de processamento foi realizado pela Secitece, com incentivo da Câmara Setorial do Caju e parcerias com empreendedores e produtores rurais.

Outras aplicações

Além do uso no setor apícola, a madeira do cajueiro tem potencial para se adequar a outros mercados. “Durante o nosso trabalho, fomos incentivados pela Secitece e pela Câmara Setorial do Caju a buscar diferentes focos de cadeias produtivas e rotas tecnológicas. Foi então que identificamos a rota do Palete, que é um produto extremamente consumido em Fortaleza”, explica Arquimedes.

Segundo o engenheiro, “na cidade, são comprados, em média, 10 mil paletes por dia. E os paletes possuem componentes que nós conhecemos como “toquinhos”, que podem ser produzidos com a madeira de cajueiro. Nós utilizamos a unidade de processamento e desenvolvemos o corte específico da madeira para a produção dos toquinhos”, afirma.

O resultado foi um sucesso. “Um produtor de Chorozinho utilizou a nossa tecnologia para produzir toquinhos, que hoje possui uma demanda conhecida em 90 mil peças. Ele já produz cerca de 2 mil toquinhos por dia e passou a vendê-los para as empresas que comercializam pallets”, conta o engenheiro, que garante que a colaboração é uma das intenções do projeto. “Assim como o trabalho de desenvolvimento da máquina contou com algumas parcerias com empresários do ramo agrícola, nós também damos apoio a novos interessados em utilizar a tecnologia, prestando consultoria no desenvolvimento dos seus próprios equipamentos. A ideia é compartilhar o conhecimento, e não retê-lo”.

A intenção, segundo Arquimedes, é mostrar que a madeira do cajueiro é viável, e que utilizando o equipamento de corte certo e um tratamento adequado, ela pode funcionar como matéria-prima para a produção de diversos itens e movimentar a economia. “A madeira do cajueiro tem um valor muito nobre para ser apenas queimada ou descartada. Nós desenvolvemos a tecnologia de corte dessa madeira para que empresas possam fabricar produtos a um custo mais baixo, e utilizando um material abundante em nosso ecossistema, já que o Ceará possui mais de três mil hectares de plantações. Além da apicultura e dos paletes, a madeira do cajueiro também pode servir na produção de móveis, e nós continuamos estudando todas as possibilidades desse material para seguir desenvolvendo a unidade fabril e ampliar as possibilidades do setor de cajucultura”, destaca.

PEC NE 2019

O projeto de aproveitamento e corte da madeira do cajueiro foi um dos selecionados para o Showroom Agropecuário do XXIII Seminário Nordestino de Pecuária (PEC NE 2019). O evento, que vai acontecer nos dias 13 a 15 de junho, no Centro de Eventos, em Fortaleza, apresenta uma programação com cursos, palestras, oficinas e seminários sobre temas voltados ao agronegócio nordestino, além de promover uma feira de produtos e serviços e ofertar espaço para expositores.

A equipe do projeto de aproveitamento da madeira de cajueiro participará do Showroom, onde irá expor o seu trabalho inovador, e concorrerá com mais sete equipes participantes em uma votação feita pelo público, que escolherá os melhores projetos. A escolha será baseada em três critérios principais: criatividade, funcionalidade e custo-benefício.